VIVENDO A VIDA:

QUANDO A PSICOTERAPIA FACILITA UM EXPERIENCIAR PLENO NA EXISTÊNCIA HUMANA (1)

 Fernando Almeida Seabra (2)

RESUMO

 O trabalho discute o final de um processo de psicoterapia. Dentro dessa proposta, levantar-se-á uma diferenciação entre um fim de processo bem sucedido, nomeado aqui como término de psicoterapia, e um processo cessado antes de um livre fluir da tendência atualizante, entendido como saída de psicoterapia.

 

INTRODUÇÃO

Podemos considerar o processo de término de uma psicoterapia como uma espécie de rito de passagem. Tal rito, neste caso, teria um sentido de um contato mais construtivo no lido com as experiências que são por nós percebidas em nosso campo de imput & output experiencial . Ou seja, nas ‘entradas‘ e ‘saídas‘ processadas a partir do encontro com o ecos social, assim como nas valorações introjetadas , as simbolizações captadas por nosso radar organísmico e as repercussões internas que tais vivências nos facilitam. Contudo, a teoria da Psicoterapia Centrada na Pessoa deixa bem claro que tais potenciais de ação facilitativa e construtiva , somente ocorrem em um término psicoterápico bem sucedido. Em suma, quando há um livre fluir da tendência atualizante e liberaração dos potenciais inatos de crescimento em direção a uma complexidade e organização internas facilitadoras de uma aplicação global e desdobramento experiencial mais acuradas, a pessoa, munida de um arsenal organísmico, terá a possibilidade de , como menciona o dito popular, "viver a vida ".

 

 

 

 


 (1)Trabalho apresentado para o curso de formação de psicoterapeutas do Centro de Psicologia da Pessoa (C.P.P.), abril/1998.

(2) Psicólogo, Psicoterapeuta (CRP 05/23243) formado na Universidade Santa Úrsula em 1997. Coordenador Administrativo do projeto GEA-PSI-USU (Grupo de Estudos e Assistência em Psicologia da Universidade Santa Úrsula).

 

‘SAÍDA DE PSICOTERAPIA’ OU ‘TÉRMINO DE PSICOTERAPIA’

 O tempo necessário e suficiente para a execução de um processo de psicoterapia , pode ser vinculado ao como é construída a relação. Pode-se dizer que existe um tempo para que, não só a relação entre os envolvidos alcance um status de segurança e confiabilidade, mas também que haja um movimento do cliente para uma simbolização coerente aos reais propósitos de um processo de psicoterapia. Isso sem deixar de nos referir ao posicionamento do psicoterapeuta como co-agente na facilitação desse citado movimento - ou seja, há uma mútua responsabilidade na construção desse ambiente facilitador. E creio nem haver necessidade de se explicitar os possíveis benefícios dessa psicoterapia na liberação de um livre fluir da tendência atualizante.

Mas sobre qual tempo aqui se fala ? Fica evidente que , tanto para as tentativas iniciais de se buscar uma psicoterapia, após constatar-se a sua necessidade como forma de redução de angústia, como para aquilo que poderíamos chamar de início operacional do processo, ou seja, quando há uma percepção pelos membros do processo de um aproveitamento e aprofundamento no vivenciar de um fluxo atualizante e um estado de integral participação em psicoterapia - configurando-se um verdadeiro momento de encontro reflexivo - , assim como na escolha sentida e consentida do cliente em sair da psicoterapia , há um tempo lógico na facilitação da ocorrência desses dinamismos. E tal lógica, referente a uma integração plena da pessoa, vincula-se às particularidades e complexidades do indivíduo.

Com isso em mente, passarei, então , para uma definição e diferenciação do que usei como título deste artigo que agora se lê: Saída de psicoterapia ou término de psicoterapia.

Retomando a distinção entre saída de psicoterapia e término de psicoterapia entendo sair da psicoterapia como uma escolha. E tal escolha, reflexo das potencialidades auto-organizadoras e auto-gestoras das pessoas. Contudo, indica que o processo, em certo sentido, foi infeliz. Ao se buscar uma conceituação acerca do que seja um processo de psicoterapia centrada na pessoa, um movimento como esse, via de regra, não se vincula com um liberar das potencialidades inatas, conexão imediata com uma manifestação da tendência atualizante., e com o próximo tópico, término da psicoterapia. Mas sim com um movimento de desistência e abandono ao processo, antes deste realmente terminar, com uma facilitação global ao crescimento pessoal.

Elaborada com o intuito de facilitar o liberar das potencialidades construtivas humanas, a psicoterapia, em um movimento de saída de psicoterapia, mostrou-se ineficaz em seus propósitos. No máximo, como o próprio ROGERS mencionava, tal processo foi eficiente. E digo isso, baseado em relato de alguns clientes que tive contato, tanto na época de estágio, quanto como profissional, atualmente. Por muitas vezes, mesmo percebendo não sentirem-se suficientemente facilitado ao encontro com seus conflitos, os clientes deixavam o processo. E muitas vezes sentindo-se não realizados consigo e com a psicoterapia.

Poder-se-ia até hipotetizar-se alguns fenômenos, possibilitadores dessa ocorrência. Citaria, como exemplo de impedimento ao livre fluxo da tendência atualizante, nesse processo de responsabilidade bi-polar, na construção da facilitação de um crescimento pessoal, diversos aspectos. Entre tantos, citaria desde uma inabilidade do profissional em se encontrar e conviver com o mundo do cliente, compreendendo insatisfatoriamente seus símbolos e valorações sentidas, assim como não sabendo captar o momento mais apropriado em se pontuar ou confrontar uma experienciação, estando ‘fora do tempo’ do cliente, dessintonizado e dissincronizado com o vivenciar desta pessoa, até um estado tal de fragilidade da pessoa de nosso cliente, que o impedisse de vislumbrar uma saída ou uma mudança de seu estado atual, ocorre um gap definitivo ao processo. Neste caso, vale dizer, a inabilidade do profissional conta bastante em se experienciar o momento do cliente. Com isso, uma dissincronia e dissintonia do psicoterapeuta em estar com o cliente facilitam-no - ao cliente - experienciar sentimentos de medo à continuidade do processo. Sentindo-se invadido, julgado ou encurralado, o cliente sai da psicoterapia.

Referindo-se ao cliente, poder-se-ia aventurar-se em situar tal dinamismo como um momento no qual o nosso óbvio, acerca de não ser o momento melhor do cliente não mais vir à psicoterapia, não ser o óbvio dele. Ou seja, seria um momento de refletirmos se estamos realmente experienciando o como o cliente se sente, ou se estamos partindo de referenciais nossos ou da teoria, acerca de crescimento pessoal. Isso, via de regra, ajudar-nos-ia não só em respeitar mais as escolhas de nossos clientes, mas também de vivenciá-las como tal, ou seja, escolhas.

Contudo, as experienciações expostas necessitam de maiores estudos, que possibilitem uma confirmação ou não. E se confirmado, passar-se a uma sistematização, se possível, da incidência desses movimentos nas pessoas, sem criar-se, entretanto, generalizações.

Seria interessante ressaltar que um movimento de saída de psicoterapia, apesar de se caracterizar por uma desistência do processo de psicoterapia, ou seja, um cessar no continuum facilitador psicoterapeutico, não indica, de forma alguma, que o fluir da tendência atualizante cesse também. Na verdade, o crescimento pessoal, em favor à construção de escolhas mais positivas, não é exclusivo somente ao momento de encontro que se convencionou chamar de psicoterapia. Em uma busca mais criteriosa na obra de Carl R. Rogers, um outro conceito inclui um vislumbre sobre uma tendência que, inata ao próprio movimento do universo, dá vazão a um potencial de auto-regulação e auto-organização a todos os elementos que estejam em relação com a existência plena - da partícula subatômica até a grandiosidade de um buraco negro e, no caso da pessoa, como integrante dessa cósmica inter-relação, um específico e inerente potencial para um crescimento mais organizado. A esse processo, Rogers deu o nome de tendência formativa. Com isso, estar ou não em psicoterapia não indica uma melhor ou pior forma de estar no mundo - designações específicas somente a quem vê esse processo como única e exclusiva maneira de se viver uma vida melhor.

Todavia, ressaltar o papel facilitador da psicoterapia a um encontro de jeitos mais construtivos de se estar na existência ,se torna aqui necessário. Poder-se-ía mencionar que, em alguns casos, nos quais a pessoa esteja com seu natural fluir da tendência atualizante bloqueado, criando distorções na percepção da realidade, e que haja uma relação psicoterapeutica refletora de uma disposição do cliente na auto-busca de seus potenciais e de uma disponibilidade do psicoterapeuta em estar com tal pessoa, de forma congruente, empática e considerando-a positiva e incondicionalmente, a efetuação de um expediente desse nível torna-se altamente saudável e recomendável.

Assim, mencionar uma saída da pessoa como tendo um caráter de escolha é totalmente bem fundamentada, já que o dinamismo da tendência atualizante indica-nos uma inata busca por formas mais satisfatórias de se estar no mundo. Ou seja, uma saída da psicoterapia , entre outras coisas, pode ser indicativo de uma falta de sensibilidade do psicoterapeuta em perceber o momento delicado pelo qual a cliente passa, uma dificuldade do profissional em realmente estar empaticamente em contato com o mundo fenomênico desta pessoa. Ou, no caso do próprio cliente, a possibilidade de uma mudança em seu mundo que, por pior que esteja, é seguro em seu conhecimento e manutenção, toma sentido de uma dificuldade justificada de uma saída de psicoterapia, enquanto refletora de dificuldades de lido com tais possíveis mudanças.

Além disso, tal saída simboliza uma espécie de indicação de até onde a pessoa quer avançar em sua jornada de auto-conhecimento e de amadurecimento pessoal. Com isso, quero dizer que mesmo um movimento de um cessar brusco no processo de psicoterapia, em linhas gerais, tem um sentido de uma escolha indicativa de um fluir, ainda que frágil, da tendência atualizante. Contudo, esse cessar está longe tanto dos propósitos de uma psicoterapia eficaz e de um fluxo satisfatório dos potenciais pessoais ao crescimento. Aí reside, então, o grande diferencial entre uma saída de psicoterapia & um término de psicoterapia.

Apesar de podermos caracterizar uma saída da psicoterapia como uma escolha, um reflexo das satisfações imediatas da pessoa e um indicativo de como as disposições dos envolvidos estão sendo projetadas no processo da relação psicoterapeutica, tal movimento passa longe de um direcionar moderado das reais possibilidades da pessoa e da própria dinâmica de uma psicoterapia de matizes qualitativamente promissoras..

Sobre o significado de um término de psicoterapia, em linhas gerais, podemos descrevê-lo a partir do que se segue: Trata-se de um movimento de saída da psicoterapia, um direcionamento a uma escolha pessoal acerca do tempo lógico e das satisfações reflexivas às aspirações imediatas e coerentes às potencialidades momentaneamente auto-possibilitadas. Mas condizentes com uma mobilização ou um fluir de um estado de inércia experiencial, distorção da auto-imagem e dos estímulos e experiências de seu contexto, o não assumir da responsabilidade sobre seus comportamentos e a tomada de atitudes - que por mais reais ao "possível" no momento - configuram-se como prejudiciais, cíclicas e imutáveis - todavia, vistas como executadas das mais novas maneiras - , em direção a um deixar fluir da tendência atualizante. Causando repercussões em um movimento das e nas simbolizações do/no experienciado, em favor a uma tomada de atitudes mais criativas, construtivas /positivas e congruentes não só com o contexto no qual se inscreve, mas também com uma percepção mais acurada de seus potenciais e a uma maior aceitação de si e dos outros, a um novo olhar sobre velhos aspectos e a criação de novas formas inéditas de se estar no mundo. Em complemento, ocorre a criação, re-elaboração ou aceitação - no caso de já existirem - de um arsenal de valores, baseados no contato pleno com a experiência imediata e na auto-noção de uma confiança maior - senão, total - em seu organismo, ou seja, um sentido de estar no mundo vinculado com o tripé eu/tu/experiência como referencial imediato às percepções e conseqüentes ações. Todavia, com peso maior no referencial adquirido pelo encontro do indivíduo com a força interna inata, encontrada naqueles que tem um profundo contato com a tendência atualizante, facilitadora de uma confiança em si mesmo - surgida através desse contato - , e uma transcendência em experienciar uma íntima ligação interativa com todos os elementos do/no Universo.

Esse movimento, que sem uma vinculação com formas melhores de ser, já que particulares - tais construções - com os potenciais internos, que todos temos, mas que os desenvolvemos a partir de nossa interação com o contexto em que nos inserimos, as nossas disponibilidades orgânicas e nas relações que mantemos com as pessoas de nosso contexto mais imediato, tem como característica mais gritante uma mudança no estar no mundo - termo com um sentido mais móvel do que ser no mundo - , em um direcionar a uma estada mais e melhor bem aproveitada na existência; enfim, seria uma forma mais satisfatória de se VIVER A VIDA.

Contudo, devido a diversos fenômenos estranhos ou não ao processo da psicoterapia - desde as objetivas dificuldades financeiras, até as subjetivas dificuldades de encontro consigo mesmo, medo da mudança, etc. -, as saídas & os términos da psicoterapia acabam por assumirem contornos diversos. Muitas vezes, ocorre uma mesclagem sobre as experiências de saída & término de psicoterapia - quantas vezes um processo que está fluindo positivamente não é barrado pelas concretas dificuldades financeiras, o que força a um abortamento abrupto na psicoterapia ? Esses movimentos de mesclagem, em suma, surgem quando o processo é encerrado por uma justificativa racional e objetiva, sem uma aparente relação subjetiva, apesar deste aspecto subjetivo estar ‘colado’ às citadas justificativas objetivas. Em outros termos, tais processos tomam sentidos trocados às suas reais características - ou seja , uma saída é pelo cliente nomeada como um término, quando é pelo psicoterapeuta notado, através das comunicações não verbais, que o estado desta saída , pelo cliente, é quase e, às vezes, em processos de psicoterapia no qual não se facilitou eficazmente um fluxo livre da tendência atualizante, até totalmente igual ao do momento no qual iniciou esse encontro reflexivo. Nesse caso, há de se relatar, tal sentido estaria vinculado, para nós , não a um término, mas a uma saída da psicoterapia.

Todavia, dentro do referencial do cliente, caso estivesse utilizando tais terminologias, as usaria como sinônimo de um término e não de uma saída que, como descritos acima, possuem significados diferenciados. E nesse caso, haveria até um grau de percepção, pelo cliente, o nosso melhor supervisor, de que sua saída não corresponderia a um real término de psicoterapia - já que ele mesmo, o cliente, estaria em contato de que suas dificuldades, ainda não resolvidas, estariam em ação, necessitando de uma reflexão mais acurada sobre elas - ou, caso prefiram, uma auto-"análise", pelo próprio cliente, acerca de suas formas de estar no mundo -, e que a psicoterapia pode ser um instrumento facilitador para sua mudança - de um estado de angústia e atitudes destrutivas, para um estado de maior satisfação e atitudes positivas. Ao contrário, então, de quando se sai da psicoterapia, satisfeito com o que se conseguiu, mas inconsciente de algumas réstias de atitudes prejudiciais a si mesmo - entretanto, não tão danosas assim, pois não mobilizadoras na busca de uma alteração no status quo vivencial (ou será que há casos no qual uma alienação é tão cegante que impede mesmo um mínimo da ação-guia de nosso organismo ?). Configurando-se, então, um nivelamento qualitativo na forma como a pessoa experiência sua saída de psicoterapia, de um estado de maior contato entre as incongruências de seu movimento e do que sente, até uma total ‘cegueira’ no vivenciar de suas experienciações, sem um contato pleno com seu mundo interno. A partir do dito, uma mesclagem estaria conectada com um movimento de menos contato do cliente com o seu mundo interno.

 

CONCLUSÃO :

Em suma, uma conceituação referente a uma diferenciação entre uma saída da psicoterapia & um término de psicoterapia pode parecer, sobre uma primeira visão, algo desnecessário. Contudo, na busca por um aperfeiçoamento do processo de psicoterapia, tais nomeações ganham importância. É sabido por todos de como alguns conceitos de Psicologia, dentro do campo do senso comum, ao invés de esclarecer, apenas auxiliam em dificultar a vida de inúmeras pessoas que, em sofrimento, buscam no refúgio da explicação mágica que muitos desses conceitos facilitam, a resolução de suas angústias. Não sendo, então, atributo dos cultos místicos somente a cabível responsabilidade dessas simplificações da existência humana - e, ouso dizer que, em certos casos, soam até mais coerentes que muitos cientificismos acadêmicos - em favor da solução dos dilemas mais atormentadores.

Com isso, através desse breve trabalho, tive por intenção discorrer sobre tais conceitos. E muito mais interessado em levantar discussões e argumentações, para um procurar de respostas, do que somente um mero jogo de palavras, trouxe tais constructos de maneira sucinta, esperando, mais a frente poder desenvolvê-los de uma maneira aprofundada.

Gosto sempre de pensar que a grandiosidade do conhecimento está na busca, e não somente nos achados. E é daí que surge a minha admiração por Rogers que, durante a construção da teoria que ora empregamos, deu tanto valor ao " o como o processo se constrói " e a força das perguntas, muitas vezes mais interessantes que muitas das respostas obtidas.

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :