Ao refletir sobre o chamado "grupão", fiquei me questionando sobre este fenômeno, e a dificuldade de se ter um entendimento mais definitivo sobre o que ocorre durante aquele período de tempo aonde, pessoas, às mais diversas, interagem de forma tão intensa e profunda.
Procurei a compreensão do fenômeno numa área que me é muito familiar - a Biologia. Pois além de Psicólogo, sou também Biólogo. Quando penso no grupão, me vem a mente a questão dos ambientes naturais, como a mata atlântica, os manguezais, restingas e outros. Ultimamente a preservação destes locais tem sido amplamente debatida e apoiada por toda a comunidade mundial. Não só pelo fato da preservação em si, como se costumava enunciar, devido a uma importância de caráter ecológico. Mas principalmente em relação à Biodiversidade, ou seja, um reservatório genético ainda pouco explorado aonde podem estar, por exemplo, a cura do câncer ou da Aids. Assim, em relação às espécies propriamente ditas, é necessário promover a manutenção da referida diversidade, enquanto variabilidade adaptativa, de conteúdo genético, da fauna e flora de cada ambiente.
Ao situar este quadro na mente, vou tentar traçar um paralelo com o grupão. O grupão tem certas características que o fazem ser como ele é. Um espaço definido, com condições para a manutenção dos seus componentes; aonde interagem organismos (pessoas) que, durante um período determinado de tempo realizarão tarefas, terão encontros casuais ou intencionais, verbalizarão opiniões, sensações e sentimentos, relatos pessoais, ocorrendo inclusive fenômenos de ordem transpessoal.
Esta conjunção de fatores e eventos, ao meu ver, imprimem um aspecto "selvagem", ou seja, mais próximo do que seria uma natureza humana em um estado de pré-sociedade, por assim dizer. Uma biodiversidade humana circunscrita à um local determinado, desenvolvendo-se num caos harmonioso ou não, durante um breve período de tempo.
Como no ambiente natural, tendo-se o meio apropriado (meio de cultura como se denomina em Biologia), o material que lá for inseminado, eclodirá. E isto se dará de forma difusa e aleatória. Podemos mesmo dizer que a tendência atualizante se mostrará de forma primitiva, numa progressão, nem sempre evidente, do mais simples para o mais complexo - idéias incompletas, percepções desorganizadas, sensações inéditas, conclusões às mais variadas, que emergirão e se extinguirão dentro do próprio grupão, numa mescla heterogênea de expressões e vivências pessoais.
O grupão seria um recorte do que aconteceria num pequeno quadrante de uma mata atlântica, por exemplo. O que temos de diferente, e isto, acho eu, é o que contribui para a sensação desagradável que muitas pessoas relatam ao final do grupão, de frustração ou vazio. É a variável tempo. Não há tempo hábil para que se possa esperar e ver, concretamente, o que surgiria ao final desta "gestação" grupal. Na natureza poderíamos definir, ao final de um processo, o que teria eclodido - um fungo, bactéria, uma árvore, um pássaro. Assim, a cada grupão, temos um recorte novo, com propostas e visões novas, como ocorre em um caleidoscópio, que muda a configuração da imagem a cada movimento que se faz nele.
Um grupão seria assim, um forma análoga do "reservatório genético". Um campo de possibilidades combinantes e cambiantes, aonde podemos ver emergir formas e conteúdos, expressões e atitudes, enfim, pessoas. Tantas quantas forem nossas capacidades de abertura para ver a grandiosidade e variedade de tais expressões pessoais, de forma original e expontânea, longe dos "cravelhos sociais" que cerceiam a criatividade e potencialidades inerentes ao ser humano.
autor - EDUARDO SÁ DE SÁ RÊGO
julho/l998