TÉRMINO DE PSICOTERAPIA
Por Eduardo Sá de Sá Rêgo


Resumo

    Procuro discutir aqui o término de psicoterapia, dentro de algumas modalidades, como: término existencial, abandono de terapia e término de terapia, propriamente dito. Proponho também uma reflexão sobre a pessoa enquanto indivíduo, na sua identidade única e singular, que emergiria durante o processo terapêutico e o confronto daquela com as normas sociais estabelecidas.

1- Desdobramentos do término de Psicoterapia

    Ao refletir sobre a questão do término de psicoterapia ocorreu-me fazer uma analogia com o ideal de ego e ego ideal. Teríamos então; ideal de "término de terapia" e "término de terapia" ideal. No primeiro caso, seria mais próximo ao imaginário do cliente, pois este, provavelmente, ao iniciar a sua jornada terapêutica tem uma hipótese, qualquer que seja ela, de um final, um término. Chegar a algum lugar aonde lá estarão todas as soluções para seus problemas atuais. Já, no segundo caso, seria próximo à visão do terapeuta ou da proposta da terapia como tal, dentro de suas conceituações teóricas. A hipótese de finalização construída neste caso, estará embasada numa teoria formada por conceitos estruturais coerentes e portanto não tão somente idealizada como sendo a melhor, mas como onde se pode chegar junto com o cliente, existindo portanto ou não, um possível término dentro de um processo, sendo este o foco e não o seu final propriamente dito.

    Podemos distinguir três modalidades de término de Psicoterapia:

  1. Término existencial: quando o cliente, digamos, se dá por satisfeito. Resolve algum conflito específico, reconhece aspectos vivenciais e pára por aí, ou outra coisa qualquer que o faz dar um fim à terapia.
  2. Abandono de terapia: geralmente, mas nem sempre, ocorre no início, ainda numa fase que poderíamos chamar de entrevista. Faço uma ressalva quanto ao termo, pois não considero abandono de terapia, já que não se abandona algo que realmente não se tem, ou se está engajado. Acho que o termo, plagiando Lacan, seria abandono do desejo de se submeter à terapia. O cliente não se sente, de fato, mobilizado, desejoso para efetuar mudanças em sua maneira de ser, ou mesmo de fazer incursões ao desconhecido de sua própria existência.
  3. Término de terapia, propriamente dito: na verdade eu consideraria como um final de contrato terapêutico, pois o processo como tal perdurará mesmo após o que estamos chamando de término de terapia. Não se dará mais entretanto, o que fora, no princípio, estabelecido formalmente, como dia e hora do atendimento, pagamento, férias e coisas assim. A terapia acaba neste sentido, mas o processo terapêutico seguirá seu curso, agora de forma mais autônoma por parte da pessoa. Não mais existindo a posição de cliente.

    Voltando ao que foi levantado no início do trabalho. Ideal de "término de terapia", fica mais relativo, creio eu, ao término existencial. E o "término de terapia" ideal ao que Rogers propõe como tal. Que pessoa portanto, irá emergir como resultado da terapia, e como poderemos então, na prática, assumir como um término de fato? Rogers fala que numa terapia bem sucedida a pessoa se encontrará num estado de funcionamento pleno. Isto quer dizer, a pessoa passa a seguir o seu fluxo orgânico, podendo viver plenamente seus próprios sentimentos e reações, de forma articulada. Ou seja, as percepções provenientes tanto do meio externo, como do meio interno, são conscientizadas e servem portanto de parâmetro para avaliações frente às situações do cotidiano, gerando uma gama de possibilidades de comportamentos e atitudes, que podem ser prontamente selecionadas, permitindo uma adequação comportamental e atitudinal/existencial satisfatória, em relação ao fenômeno experenciado.

    Tal processo, acima descrito, é auto-regulador, sendo as respostas passíveis de mudança caso não satisfaçam numa dada situação ou conflito. Na direção de tornar-se ela mesma, enquanto pessoa, seus sentimentos não causam medo ou receio, podendo encará-los de forma realista dentro de um contexto social qualquer, pois tais sentimentos são a própria pessoa e, sendo assim, atuam como referencial seguro do que acontece com ela, a cada momento de sua vida, orientando-a e localizando-a, no tempo e no espaço, nas suas relações interpessoais.

2- Mudanças e normas sociais

    Chamou-me a atenção quanto ao aspecto de socialização, comentado no texto "Conceito de pessoa em funcionamento pleno". Fico meio na dúvida sob que aspecto isto está relacionado. Socializar, como eu entendo, é inserir alguém num contexto social (econômico, cultural, histórico, etc.). De certa forma é preciso "podar", por assim dizer, para permitir certo ajuste à dinâmica social vigente. Isto não me parece ser a proposta de Rogers, muito pelo contrário. Vejo na teoria uma proposta revolucionária, aonde a contestação é um dos tópicos predominantes, na relação Eu (organismo)/Mundo (social). Ou seja, eu sou o meu próprio referencial, o filtro sou eu mesmo, e não as convenções sociais. Posso até me adequar à elas mas não me submeter à elas. Mas até onde vai a plasticidade de minhas capacidades adaptativas, ou mesmo, até onde estou disposto a ir? O que divide o individual do social, aonde está este limite, se é que há? Ou isto é mais uma convenção que digerimos e incorporamos?

    Focalizando mais atentamente nas capacidades adaptativas, as quais eu me referi anteriormente, podemos tentar desenvolver as questões levantadas.

    Quando uso o termo "adaptado", quero dizer: tornar alguém "apto à" - ou seja, capaz de responder adequadamente, de forma satisfatória, às mudanças do meio. Porém tal capacidade é limitada tanto física quanto psicologicamente. Existe uma fronteira portanto, além da qual não me é possível avançar. De certo modo assim o é também no que concerne às normas sociais, já que estas servem como parâmetros que acabam por estabelecer fronteiras que delimitam a ação da pessoa no seu meio social. Pensando assim fica didaticamente dividido o meio individual, definido pela plasticidade de minhas capacidades adaptativas. E o meio social, definido pelas normas que permitem ou não este ou aquele comportamento. Assim estamos caracterizando um espaço de ser, compreendido pelas minhas atitudes, as ações, diante de cada situação. E um espaço de estar, expressado pela minha conduta, a forma de agir, quando exercito minhas atitudes.

    Fica claro para mim, que a terapia propõe-se a ampliar nossa habilidade para compor uma adequação comportamental/atitudinal junto à determinado contexto social. Assim a divisão, apontada por mim inicialmente torna-se, pelo menos, neste instante, móvel. Com isto permitindo mesmo, um certo gerenciamento do meio por parte da pessoa para, inclusive, proporcionar uma mudança à nível social, posteriormente.

3- Conclusão

    Por conseguinte, tanto pessoa como meio estariam, na realidade, se movimentando dentro de uma certa unidade espaço/temporal. Neste ponto de minha reflexão parece desvanecer-se o caráter divisório Eu/Mundo. A terapia portanto, permitiria transcender o aspecto ilusoriamente individual, passando deste para o âmbito social, tornando desta forma a pessoa, no seu chamado "funcionamento pleno", em um agente de mudança social quando exerce a sua "funcionalidade", por assim dizer, no meio. Agora atuando de forma imbricada, articulada com o meio e não mais à parte deste, como mero reprodutor de normas e convenções, ou apenas reativo, e portanto sem consistência ou poder de mudança de fato.

    Teríamos assim, emergindo do processo, a tal "pessoa", tão falada teoricamente. Como esta pessoa em questão estaria gerenciada, por assim dizer, pelo seu fluxo orgânico, e este sendo uma consequência da tendência atualizante, já que aquele promoveria as mudanças adaptativas necessárias ao desenvolvimento da pessoa durante o contato com o chamado meio social. Cada pessoa oriunda deste processo agiria como fluxo orgânico desta entidade constituída - o "social". Forma-se, desta maneira, a unidade já referida anteriormente, pulsando harmonicamente dentro do conceito mais abrangente e atual da tendência formativa. Com isto a variabilidade de atitudes desencadeadas permitiria outras formas de agir, gerando assim mudanças mais eficientes, de forma a criar, em seguida, um campo de possibilidades vivenciais e relacionais mais saudáveis e dinâmicas.

 

Bibliografia consultada

Wood, J. K. et al (org.). Abordagem centrada na Pessoa. EDUFES. 1994.