ATUALIDADES EM PSICOLOGIA: ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
Participei, como representante da Universidade Santa Úrsula, do VI Fórum Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado na Grécia (cidade de Leptokarya) de 30/06 a 09/07, quando apresentei o trabalho: A História da ACP no Brasil. Foi uma oportunidade especial de troca de informações e de conhecimento de profissionais de outras culturas que, apesar de partilharem do mesmo posicionamento teórico, apresentam suas leituras idiossincráticas.
Proponho-me a apresentar algumas reflexões sobre as aprendizagens, descobertas e frustrações a partir deste evento. Em seguida, como conclusão, traço algumas perspectivas sobre a importância da contribuição da ACP na nossa realidade, oferecendo um modelo potente no enfrentamento de questões cruciais, especialmente às relativas à Saúde Mental.
1. O que é um Fórum Internacional da ACP?
Desde 1982, os profissionais engajados com a ACP têm realizado um evento internacional, congregando as mais variadas culturas, objetivando a atualização dos conhecimentos e práticas mais recentes, bem como a construção de uma comunidade provisória e fugaz, a partir dos princípios norteadores da ACP. Neste sentido os Foruns (1982, no México; 1984, na Inglaterra; 1987, nos EUA; 1989, no Brasil; 1992, na Holanda e 1995 na Grécia) têm sido organizados por uma comissão local do país escolhido e por membros de um Grupo de Apoio Internacional, que, juntos, delineiam o formato, temas e estrutura. Essas comissões tentam preencher as necessidades e expectativas dos profissionais de seus países, agrupando os temas (teóricos, práticos e vievenciais) e organizando as atividades (apresentação de trabalhos, vivências, grupos de crescimento pessoal, grupões, demonstrações, painéis, sessões de vídeo, visitas culturais/turísticas e atividades de lazer).
Ainda que cada Fórum tenha sido influenciado pela cultura local organizadora, todos têm uma atenção especial à interação grupal e aos aspectos vivenciais presentes. Neste sentido os Foruns da ACP se distinguem dos Congressos tradicionais, pois todos os participantes são co-responsáveis pelo produto e pelo processo: não existe convidados especiais e platéia e isso não implica na falta de reconhecimento das diferenças. O grau de estruturação têm variado. Aqui vale ressaltar que o IV Forum, realizado no Brasil, foi, até o momento o que ofereceu somente estruturação externa, deixando o processo se desdobrar a cada momento. Isto parece evidenciar que a comunidade brasileira pôde confiar mais na "sabedoria do grupo" (tendência formativa) do que a comunidade internacional;
2. O VI FORUM INTERNACIONAL DA ACP
A abertura formal do Forum foi na cidade de Salônica (norte da Grécia) com visita turística, aula de escavação na Universidade de Aristóteles, e recepeção de políticos e docentes locais, incluindo a reitoria, além do oferecimento de jantar e almoço típicos, propiciando um início de entrosamento entre os participantes do Forum e a comunidade local.
No dia 01/07 partimos para o Hotel Olimpyan Bay em Leptokarya, à beira de uma belíssima praia, onde permancemos até o final do evento. Diversas culturas (29 países) estiveram representadas pelos 200 participantes, sendo 11 brasileiros de 4 estados (RJ, SP, MS e AL).
A maior parte da programação estava prevista, com margem para inclusões e exclusões e todos os participantes receberam uma pasta com os resumos dos trabalhos e alocação das apresentações (cronograma), conforme a tabela:
| 09:00 às 11:00 | GRUPÕES DA COMUNIDADE |
| 11:30 às 13:30 | TRABALHOS TEÓRICOS OU PRÁTICOS |
| 16:30 às 18:30 | GRUPOS VIVENCIAIS |
| 19:00 às 21:00 | TRABALHOS TEÓRICOS OU PRÁTICOS |
Além destas atividades, tivemos um dia inteiro para conhecer o Monte Olimpo e a Cidade de Dion (passeio turístico e visita ao museu) e várias .atividades noturnas (noites folclóricas, churrasco, comemoração dos aniversários do mês, noite internacional e jantar de despedida).
2.2.Grupões da Comunidade -
A hipótese da "aprendizagem significativa" é experienciada num espaço sem estruturas a priori, portanto sem agenda. Todo e qualquer assunto é benvindo, incluindo modificações no formato, pendências interpessoais, sugestões de atividades, reclamações administrativas, sentimentos pessoais, formação de equipes e de cursos pós-evento, apresentação de teorias ou técnicas inovadoras. Neste sentido, podemos afirmar que estes grupões funcionam como fonte de comunicações pessoais e interpessoais, servindo como um solo fértil das idéias e discussões, permitindo assim que a coletividade provisória possa formar uma verdadeira comunidade O grupão
funciona como um espaço integrador dos níveis cognitivo e experiêncial, servindo também para a construção da comunidade internacional presente.Neste Forum, o grupão foi muito "atravessado" pela cultura local e pelo próprio espaço físico, que não era exclusivo aos participantes. Tratando-se de um evento residencial, objetivando também a troca interpessoal, necessitaria de um local fechado aos participantes ou, pelo menos, maior privacidade (nas refeições e nas atividades de lazer), o que não ocorreu. Assim, nem todos os presentes participaram dos grupões, dificultando a emergência de uma real comunidade, onde as mudanças e trocas pudessem ocorrer de maneira mais fluida.
Algumas discussões levaram a mudanças na agenda prevista, como, por exemplo, a união dos grupos de gênero (homem e mulher), mudança de salas e atividades (inclusão e exclusão).
No Grupão, qualquer língua podia ser expressa, não havendo tradutores oficiais e, quem desejasse e pudesse, traduzia para o Inglês, a língua mais falada.
Pessoalmente, aproveitei e participei intensamente desta atividade, expressando-me sempre que necessário e pude perceber as dificuldades da convivência, quando a proposta implica em transparência e formação de comunidade multi cultural (diversidades e similaridades).
2.2.2. Workshops / Grupos Vivenciais / Vídeos - Alguns participantes se ofereceram para coordenar grupos vivenciais (de crescimento pessoal, tipo grupo de encontro) ou atividades vivenciais (de técnicas ou demonstração).
Neste Fórum, tivemos:
um grupo de encontro diário, do qual não participei e que, após o segundo dia, ficou fechado a novos componentes;
um grupo de gênero, focalizando experiências e reflexões sobre feminino e masculino; era um grupo aberto, onde as diversas experiências sobre ser homem e ser mulher, ser homo, hetero ou bissexual eram colocadas, sem nenhuma tentativa de analisar, criticar ou aplaudir; era um momento de compartilhar, de aprender com as experiências; participei quase todos os dias, confirmando minha escolha heterossexual e sentindo-me menos avaliativa das experiências diferentes;
um vídeo sobre o trabalho com deficientes, especialmente crianças autistas, a partir da interação com os golfinhos, que se mostram acuradamente empáticos; fiquei encantada e desejosa de trabalhar com deficientes;
um vídeo, sob a perspectiva de um cineasta, sobre o fórum anterior (na Holanda), ressaltando momentos significativos; gostei de rever alguns momentos que participei.
uma entrevista psicoterápica ao vivo, no sentido de exemplificar alguns conceitos básicos da ACP e receber feedbacks da audiência; foi muito estimulante presenciar ao vivo alguns fenômenos que ocorrem na prática psicoterápica e perceber a diferença de posicionamento, de leitura da mesma teoria;
uma vivência para partilhar relacionamentos afetivos conjugais, a partir da mitologia grega sobre Afrodite e Efisto;
2.2.3. Apresentação de Trabalhos - Cerca de 60 trabalhos foram apresentados, cujas temáticas abrangeram áreas da psicoterapia, educação, instituição, pesquisa, trabalhos de grupos, influências culturais, pacientes terminais, saúde mental, trabalho com psicóticos, influencia social, formação de comunidades, sexologia, ambiente de risco, questões de gênero, processo criativo, impacto da ACP na América Latina e Europa Oriental.
Os resumos da maioria dos trabalhos encontra-se anexado, pois foi distribuído aos participantes uma pasta, contendo estes resumos e a agenda prevista das apresentações.
Participei de 12 apresentações, incluindo a que apresentei. Percebi que poucas novidades encontrei nos autores americanos e europeus ocidentais, entretanto os latinos e europeus orientais trouxeram-me contribuições valiosas.
O trabalho de Peggy Natiello sobre "O Relacionamento Colaborativo na Psicoterapia" enfatizou o papel do terapeuta e da relação terapêutica influenciando o crescimento do cliente e a importância de não assumir mais poder pelo cliente, que encontra-se fragilizado e receptivo a ser guiado. O terapeuta precisa renunciar ao papel de especialista e estar aberto a partilhar seus valores, pois a saúde psicológica inclui a possibilidade de conexão com outro ser humano.
A apresentação do russo Kolpachnikov enfocando "Abordagem Centrada na Pessoa e Provisão de Ajuda Psicológica à Rússia de Hoje", levantou questões semelhantes à realidade brasileira, especialmente em relação aos "excluídos" e como contribuir para que as pessoas tornem-se independentes, com iniciativa, sem necessitar de orientação normativa e buscando sua liberdade interior. O autor considera que os pressupostos humanistas estão adequados a enfrentar estas questões, entretanto sente necessidade de algumas reformulações para melhor utilização na vida cotidiana.
Uma discussão interessante surgiu no trabalho de Colin Lago, que trouxe suas reflexões a respeito da Era do Computador, quando as pessoas tornam-se íntimas de uma maneira segura, pois não existe relacionamento face a face. Assim, quais são as implicações gerais para a sociedade e para os psicoterapeutas em particular, da utilização de computadores?
A brasileira Lenise Brandão trouxe sua contribuição referente ao atendimento em hospital geral a pacientes terminais (com câncer), ressaltando a importância de treinamento adequado às equipes médica e de enfermagem, bem como acompanhamento psicológico ao paciente e familiares. A autora ressalta a adequação dos conceitos da ACP nessa situação extrema, onde os envolvidos tendem a negar e negligenciar a doença e a morte.
A questão do gênero permeou grande parte do Forum, tanto nos grupos vivenciais, onde os participantes puderam compartilhar suas experiências e aflições, quanto na apresentação de Suzanne Spector, a partir se sua pesquisa de Doutorado. Ela entrevistou mulheres acima de 50 anos, de várias culturas e profissões, que vivem sozinhas e sentem-se felizes; utilizou pesquisa qualitativa fenomenológica e, a partir da análise de conteúdo encontrou temáticas interessantes em relação à identidade, confiança e conexão. Foi estimulante participar da discussão, ouvir os depoimentos das mulheres presentes, aprendendo um pouco com elas e preparando-me para esta etapa de vida com mais esperança e confiança.
Na minha avaliação, a apresentação mais interessante foi a de John Wood, americano, residindo no Brasil há mais de dez anos, que nos presenteou com suas reflexões, chamando a atenção para a necessidade de fundamentar a nova ACP nos processos biológicos, especialmente na Biologia Evolucionária, pois o fenômeno humano é por demais complexo para ser compreendido somente pela sua dimensão psicológica. Ele acredita e eu concordo totalmente que a Saúde Pública poderia se beneficiar da ACP, a partir da atitude "eu realmente não sei" para encontrar métodos efetivos de ajuda.
A filósofa e artista plástica brasileira Lucila Assumpção nos presenteou com sua poética apresentação "Arte Cun-Sciencia", que mostra sete histórias de sete personagens com leques e roupas, caracterizando s diversas facetas do ser humano e seus potencial de crescimento.
A vivência acompanhada de reflexão sobre as técnicas expressivas levou o pequeno grupo a repensar a utilização maciça da linguagem verbal dentro e fora do contexto psicoterápico, expandindo assim o repertório do facilitador para além da "conversa verbal", sem abrir mão das atitudes facilitadoras propostas por Rogers.
A minha apresentação sobre o percurso da ACP no Brasil foi bem recebida, especialmente pelos russos e europeus orientais, que encontraram semelhanças em relação às dificuldades do contexto de terceiro mundo. Ruth Sanford (EUA) também participou e pode entender melhor porque Rogers havia se encantado tanto com o Brasil. Ela foi sua última companheira e não teve oportunidade de acompanhá-lo em suas três visitas ao Brasil.
2.2.4. Atividades de Lazer e Cultural - Como mencionado anteriormente, este Forum proporcionou várias atividades, apresentando a cultura grega, sob a forma de passeios, danças folclóricas e comidas típicas. Visitamos a cidade de Salônica, seus museus e igrejas. Fomos a Dion (Vila de Dionísios) e depois ao Monte Olimpo, sempre acompanhados de guias especializados em Inglês e Francês. Tivemos a oportunidade de assistir a duas noites de danças folclóricas, além de um churrasco, um jantar especial (comidas típicas) e noite internacional, onde os representantes dos países eram convidados a dançar e/ou cantar. Além disso, a Comissão Organizadora preparou uma festa surpresa para os aniversariantes de julho, quando cada um recebeu um bolo confeitado com seu nome, além de uma garrafa de vinho e todos os participantes puderam ouvir e dançar músicas gregas, incentivados pela alegria e cordialidade dos componentes da comissão organizadora. Participei entusiasticamente de todas estas atividades e pude vivenciar melhor a cultura grega mesclada de um ambiente internacional acolhedor e diversificado.
3. CONCLUSÃO
Após um mês do término do VI Forum, percebo que aproveitei mais do que me dei conta durante o evento. Eram muitas informações para serem processadas simultaneamente. Inicialmente, o impacto cultural e as emoções vivenciadas em "passear" na cultura clássica. Durante o Forum, o reencontro de antigos amigos internacionais e o entrosamento com outros, ainda desconhecidos, além da utilização intensa da língua inglesa, deixaram-me entusiasmada. Aos poucos, fui ficando mais receptiva e podendo assimilar novas informações.
Participei com prazer de todas as atividades, lamentando a super posição de alguns trabalhos, que me obrigava a escolher um só, em cada momento. Conseguimos fazer um rodízio com outros brasileiros presentes, para podermos trocar o que aprendíamos.
Não senti dificuldade em participar das apresentações e vivências, pois as preocupações e questões colocadas por colegas internacionais refletiam as nossas, especialmente as referentes à Educação e à Psicoterapia, em seus mais variados contextos. A urgência em criarmos metodologias mais adequadas ao ser humano de hoje permeou várias discussões. Não podemos nos enclausurar em nossos consultórios, enquanto a maior parte da população mundial está faminta, não só de alimento, mas principalmente de esperanças.
A Abordagem Centrada na Pessoa reconhece suas limitações, mas seus artífices consideram-na adequada para contribuir na construção de uma sociedade mais humana e mais justa. Os esforços de vários profissionais ali presentes já demonstram alguma aplicabilidade deste modelo no enfrentamento de situações críticas, especialmente no leste europeu. Esta realidade me entusiasma e me fortalece, enquanto profissional e pessoa.
Gostei da receptividade do meu trabalho, pois a maioria desconhecia o que desenvolvemos aqui no Brasil. Acho que contribuí para maior divulgação de nossas realizações e, para minha surpresa, não estamos atrasados em relação aos países do Primeiro Mundo. Em termos gerais não encontrei muitas novidades, mas senti-me legitimada em perceber as similaridades de pensamento e de ação em culturas bem distintas da nossa.
Percebi que as questões de gênero ocupam um espaço maior nos EUA e Europa e, tanto os homens quanto as mulheres estão interessados em buscar formas mais construtivas de convivência, que não implique em manipulação de um pelo outro. Os grupos vivenciais, que ocorreram todos os dias foram muito fortes, onde as pessoas expressavam de forma direta suas preocupações, dificuldades e vivências. Fiquei mais sensibilizada com o relato dos homens, sentindo-se perdidos em seus novos papéis do que algumas mulheres, que persistiam em se colocar como vítimas da manipulação masculina.
Hoje posso afirmar que retornei mais preparada e esperançosa de que a Psicologia, como um todo, e a Abordagem Centrada na Pessoa, em particular, podem e devem utilizar de seus recursos na busca de uma convivência mais humana. Sinto-me mais fortalecida para enfrentar as contigências de nosso país tanto na sala de aula, quanto no atendimento aos clientes particulares.