NACE – Núcleo de Acompanhamento de Estagiários:

A Construção da Identidade

Marcia Alves Tassinari

RESUMO

A observação dos supervisores de Psicologia em relação ao momento crítico de seus estagiários na trajetória em direção à vida profissional, apontou para a necessidade de um espaço reflexivo e vivencial, onde as descobertas, ansiedades e inquietações pudessem ser explicitadas e compartilhadas e repensadas.

O trabalho apresenta a implantação e o desenvolvimento do Núcleo de Acompanhamento de Estagiários (NACE) do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Santa Úrsula, a partir das reflexões da coordenadora e dos feedbacks dos participantes, ao longo de três anos.

Os pressupostos da Abordagem Centrada na Pessoa, aliados aos recursos expressivos, fundamentam o trabalho em grupo do NACE, que é realizado durante o primeiro semestre do estágio, com grupos de 10 a 20 participantes, que se reúnem uma vez por semana, ao longo de 15 semanas.

As reflexões aqui apresentadas sugerem que esta atividade tem colaborado na construção da identidade do estagiário de Psicologia, no sentido de prepará-lo para o mercado de trabalho, de oferecer um clima facilitador para suas ansiedades e descobertas e de criar um grupo de suporte mútuo, favorecendo a interação grupal, além de possibilitar o conhecimento de todos os trabalhos desenvolvidos no SPA (Clínica – Escola).

O interesse em apresentar este trabalho no II Fórum Brasileiro da ACP relaciona-se à possibilidade de sugerir um experiência valiosa, que pode ser útil a outros supervisores, além da oportunidade de receber sugestões enriquecedoras.

 

    1. Introdução: O QUE É O NACE?

A partir de observações compartilhadas com outros supervisores em psicoterapia, submeti, em 1994, à coordenação do SPA (Clínica - Escola) da USU um projeto que acompanhasse o período de transição do/a estagiário/a e que abrisse um espaço reflexivo sobre o estágio em Psicologia, de uma forma geral, então denominado de Grupo de Acompanhamento dos Estagiários.

Tendo obtido boa acolhida por parte da coordenadora e, discutindo a formação do Psicólogo nesta instituição, pensamos em abrir um espaço mais definido, formando uma espécie de núcleo, onde o/a estagiário/a recorresse sempre que necessário. Assim, após aprovação da Reitoria, denominamos este trabalho de Núcleo de Acompanhamento de Estagiários – NACE.

Meu trabalho como membro da equipe de formação de psicoterapeutas do Centro de Psicologia da Pessoa, desde 1976 e como supervisora clínica em universidades, desde 1984, vinha apontando para algumas questões básicas circunscritas ao início do estágio, principalmente.

No Centro de Psicologia da Pessoa (CPP), já havíamos incluído, desde 1983, como uma das atividades da formação o grupo operativo, centrado na tarefa da identidade do psicoterapeuta centrado na pessoa, espaço vivencial, aberto às reflexões geradas na própria formação e que se remetem basicamente à:

Com essa experiência anterior com Psicólogos e Médicos graduados e, com observações pessoais partilhadas com outros supervisores da faculdade, pensei na possibilidade de criar um espaço semelhante, voltado para as questões mais características do período de estágio, que se insere na vida acadêmica do estudante de Psicologia. Assim, nasceu o NACE.

 

    1. O Estágio como um período de transição

Pensar o estágio como um período de transição de papéis, de aluno de graduação para profissional, que pretende se inserir no mercado de trabalho, facilita compreender muitas questões que transcendem os aspectos cognitivos e didáticos propriamente ditos.

Como toda transição de vida, implica em crise (perigo e oportunidade, nos ideogramas chineses), em perdas e ganhos, difíceis de serem assimilados sem um espaço específico para serem expressos, compartilhados e assimilados.

As observações anteriormente mencionadas referem-se às tensões geradas a partir:

 

3. Objetivos do NACE:

3.1. Objetivo Geral:

Oferecer um espaço reflexivo e vivencial, que acompanhe e dê suporte a transitoriedade ambígua da identidade profissional, transformando-a num ponto de referência sólido e integrado.

      1. Objetivos Específicos:

 

  1. Metodologia do NACE:
  2. A idéia inicial era oferecer um espaço aberto, que o/a estagiário/a recorresse quando necessitasse. No primeiro semestre, fizemos uma experiência – piloto, apenas informando a existência de uma supervisora disponível às terças e quintas feiras, à tarde (das 13 às 16 horas). Como os outros supervisores não estavam familiarizados com o projeto e os estagiários já estavam integrados em sua equipe, a resposta, em termos de procura, foi muito pequena. Os que se interessaram, traziam reivindicações e ficavam aguardando o que era para ser feito. O caráter opcional do NACE foi vivenciado como algo extra, que implicava no aumento de carga horária e já que as dúvidas quanto ao atendimento poderiam ser discutidas em sua própria equipe, não viam muito sentido na proposta. Aproveitamos esse período para atualizarmos as fichas e discutirmos algumas normas do SPA, que poderiam ser também adaptadas às necessidades vigentes, além de repensarmos, junto com os estagiários/as que freqüentaram esse momento, o próprio NACE.

    No semestre seguinte (1995.1), optamos por introduzir formalmente, como uma das atividades obrigatórias do período do estágio (um ano e meio), o comparecimento ao NACE para os novos/as estagiários/as e, opcional para os/as antigos/as. Os outros supervisores foram informados, via reunião ou circular e, após reflexões em conjunto, todos mostraram-se entusiasmados com a proposta, sugerindo que o início devesse funcionar como uma espécie de treinamento sobre as triagens. Vale esclarecer que, nessa instituição, o/a estagiário/a tem que realizar seis triagens e só começa o atendimento propriamente dito no segundo semestre do estágio.

    Em função de minha carga horária e do próprio caráter experimental, formamos dois grupos, com estagiários/as de diversas equipes, semanalmente, com reuniões de uma hora cada, quando explicitamos os objetivos. Um roteiro de triagem foi elaborado para facilitar o treinamento e, também para homogeneizar as diferentes práticas das equipes.

    Com exceção desse início, voltado para as informações sobre o próprio SPA (regimento interno e manual do/a estagiário/a) e sobre o treinamento das triagens, as reuniões do NACE não têm agenda preestabelecida; trabalha-se as questões emergentes, focalizando-se a construção da identidade profissional, num clima facilitador, segundo a ACP, utilizando-se, eventualmente, recursos expressivos, isto é, exercícios de dinâmica de grupo, pequenos trabalhos corporais e de arte terapia. Discussão de textos, debates sobre vídeos didáticos ou filmes artísticos, ou sobre fatos do cotidiano, bem como diálogo como outros profissionais, são sugeridos como possibilidades.

    O princípio norteador da facilitação no NACE envolve a expansão da auto consciência dos/as estagiários/as e a construção de uma comunidade de aprendizagem significativa, onde as dimensões cognitivas e experienciais possam ser abordadas.

     

  3. Conclusão:

Após quase três anos desenvolvendo esse trabalho, recebendo feedbacks espontâneo e estimulado dos estagiários/as e de outros/as supervisores, levanto algumas questões, que gostaria de discutir com os participantes do II Fórum, especialmente com os supervisores de estágio de clínicas-escolas.

A idéia inicial de construção de um núcleo que acompanhasse toda a trajetória do/a estagiário/a foi modificada devido a questões institucionais. A minha carga horária não pode ser ampliada e, para que cada semestre, os novos/as estagiários/as pudessem participar do NACE, restringimos sua realização ao primeiro semestre do estágio, direcionado para os novos/as estagiários/as, porém aberto aos antigos (que já haviam participado em semestres anteriores). Essa mudança também foi orientada pela avaliação de que o período inicial do estágio, suscita ansiedades e medos mais explícitos do que nos próximos e os/as estagiários/as ainda não estão totalmente integrados em suas equipes. Posteriormente, a equipe funciona também como um suporte para explicitação da identidade profissional e as dúvidas teóricas-técnicas-existenciais são "atendidas" na própria supervisão. Esse fato indica uma certa superposição de objetivos com o NACE.

Ainda que eu tenha concordado com essa mudança, fiquei um pouco frustrada, no início, uma vez que a idéia original era criar um espaço que fosse procurado sempre que o/a estagiário/a, de qualquer nível, sentisse necessidade ou alguma inquietação frente sua identidade em construção. Entendo, que deixar a iniciativa nas mãos deles/as poderia favorecer a auto-responsabilidade frente à profissão. Por outro lado, o esquema tradicional de ensino, também presente nesta instituição, reforça que os/as alunos/as fiquem passivos e orientados para executar as funções obrigatórias e que valem para a nota. Era então necessário criar um clima mais favorável para que começassem a desenvolver uma atitude mais crítica e se implicassem de fato com o estágio.

Outra questão que tem permeado nosso trabalho, refere-se ao caráter não estruturado do NACE. Tem sido muito difícil para a maioria dos participantes entender, no início, como podemos desenvolver algo juntos. Assim, ficam passivos, aguardando que a coordenadora diga o que deve ser feito. Vale relembrar que os participantes estão inseridos num contexto educacional tradicional, onde enfatiza-se o papel passivo de aluno e ativo do professor. Acrescido desse fato, a orientação teórica predominante do departamento de Psicologia e do próprio SPA é a psicanálise e, portanto, espera-se que uma orientação "a la" psicanálise se realize no próprio NACE. Creio que esse impacto inicial tem se modificado, à medida que alguns já vem para o grupo sabendo que a coordenadora é "centrada na pessoa" e, portanto, não irá dirigir o processo do grupo.

Percebo que as ansiedades geradas com as primeiras entrevistas de triagem facilitam as reflexões sobre o papel do psicólogo e a responsabilidade que começam a vivenciar com a profissão. Assim, alguns adiam esse momento, aguardando que outros possam relatar como foi e, ir aos poucos, se familiarizando com o lugar de psicoterapeuta ou de psicólogo institucional, já que o SPA da USU mantém um convênio com a Fundação Romão Duarte, que acolhe crianças e adolescentes abandonados para futura adoção. Nesta instituição, alguns/mas estagiários/as coordenam grupos operativos e observam os bebes, estimulando-os.

A questão que tem me chamado mais a atenção refere-se à interação grupal. Sempre que oportuno, ofereço a possibilidade de explorarmos nossa interação, o que é percebido como uma tentativa de fazermos "análise em grupo". Quando nos propomos a tirar dúvidas e preparar para as entrevistas de triagem, os/as participantes mostram-se cooperativos e oferecem suporte aos seus colegas. Após esse período inicial, quando as dúvidas são esclarecidas e as triagens são realizadas com relativa tranqüilidade e sucesso, o grupo começa a querer preencher o "vazio", solicitando, por exemplo, que a coordenadora traga alguma coisa interessante. Algumas pessoas começam a experimentar que aquele é seu grupo e podem fazer dele o que quiserem. Outras sentem-se obrigadas a comparecer, a exercer o papel de estagiário/a, Outros/as sentem-se inibidos para propor algo a ser discutido ou para colocações mais pessoais/interpessoais. Por outro lado, quando algo ocorre na instituição que possa afetar o estágio (demissão de supervisor, falta/escassez de clientes e/ou sala para atendimento, etc.), o grupo mostra-se mais cooperativo e integrado e, os encontros do NACE são vivenciados como um espaço, onde podem se reunir, se encontrar e pensar juntos para resolver ou sugerir esquemas de ação.

Ainda que o NACE não seja um espaço de decisões, nem pode deliberar nada, pode influenciar, encaminhar e sugerir questões para a coordenação. Nesses momentos, que entendo como críticos, a interação grupal emerge criativamente, especialmente, quando algumas reivindicações são atendidas pela coordenação.

Alguns grupos organizam um fechamento do NACE com uma festa de encerramento, às vezes, com dramatizações do papel do psicólogo, com brincadeiras (cantos, mini teatro, dança, desenho grupal, etc. ) com lanche coletivo previamente organizado, como se fosse um ritual de passagem – de estagiário/a calouro/a para veterano/a. Outros grupos, simplesmente perguntam quando será a última reunião, se podem faltar e continuam o estágio, tendo cumprido a etapa de freqüentar o NACE, sem se envolver muito com seus colegas, achando que os/as parceiros/as da equipe formam o verdadeiro grupo de suporte para eles/elas.

Percebo, que à medida que vou me familiarizando com a proposta do NACE e com as limitações e possibilidades da instituição, vou também criando alternativas e, procurando interagir com cada grupo em particular, focalizando as expectativas presentes e, colocando-me disponível para caminhar no ritmo de cada grupo.

Sei que, em algum nível, a passagem dos/as estagiários/as pelo NACE coloca uma semente possibilitadora de frutos posteriores. Recebo diversos feedbacks de supervisores e de alguns/mas estagiários/as nesse sentido, mas creio que a experiência ainda é recente para conclusões mais definitivas, necessitando de outros critérios de avaliação. Como desdobramento desse trabalho, pretendo sugerir a implantação do Plantão Psicológico no próprio SPA, tendo o NACE como espaço preparatório. Penso também em sugerir que outros departamentos também possam oferecer um trabalho semelhante com os formandos, mas ainda é cedo para tanta novidade.

 

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